Por Inês Mindlin Lafer, idealizadora do Confluentes                                                                

A Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) informa que as doações destinadas a minimizar os impactos do coronavírus no Brasil já ultrapassaram a marca dos R$ 2 bilhões em três semanas. Incluem-se aí quantias em dinheiro, que se somam a iniciativas diversas, como cestas básicas recursos para respiradores mecânicos, produção de máscaras, doações de aventais hospitalares, compra de álcool e criação de fundos a partir da mobilização do terceiro setor e lideranças da sociedade civil.

O número acima reafirma não só a urgência do enfrentamento de uma crise sem precedentes como também inspira a reflexão sobre algo fundamental —a doação para causas estratégicas num momento de calamidade e, em especial, a prática da filantropia no Brasil.

Ao mesmo tempo em que as doações emergenciais se fazem necessárias, a pandemia nos coloca diante dos efeitos nocivos das brutais desigualdades do Brasil. É necessário distribuir álcool em gel, mas sem água e saneamento em todos os domicílios não poderemos seguir os padrões de higiene recomendados para evitar que o vírus se espalhe.

Sem políticas que garantam moradia digna e deslocamentos menos longos e lotados, não teremos sucesso no “achatamento da curva”. Precisamos de respiradores, mas também de financiamento robusto para o SUS. Precisamos de renda emergencial, mas de políticas públicas redistributivas e geradoras de emprego e renda. Precisamos de uma sociedade vigilante que pressione nossos governantes, mandatários e operadores de justiça.

A filantropia para causas estratégicas reconhece a importância da doação para o atendimento das necessidades imediatas, mas não deixa de olhar para a ação sistêmica e de longo prazo. Também não pode, nem deve, restringir-se à atitude de filantropos milionários, fundos internacionais engajados em causas sociais, institutos e fundações empresariais ou empresas socialmente responsáveis.

Estudo da Charities Aid Foundation, de 2017, mostrou o potencial de doação de pessoas físicas no mundo: há espaço para que, até 2030, a classe média global possa quase dobrar seus gastos. Se essa mesma classe média ascendente dedicar apenas 0,5% de seus gastos a doações, isso equivalerá a US$ 319 bilhões por ano para causas estratégicas.

Antes que alguém alerte para as diferenças entre classes médias dos países ricos e em desenvolvimento, convém dizer que a maioria dessa população em ascensão reside em países de renda média e baixa. A barreira está, entre outras coisas, na baixa cultura de doação.

O fato é que muita gente no Brasil não se vê como elite, mas quem tem renda acima de R$ 27.744 mensais está no grupo do 1% mais rico entre os trabalhadores brasileiros. Pode, portanto, assumir seu protagonismo na construção de um país mais justo. É possível uma filantropia estratégica que cabe nesse bolso de quem tem um pouco mais a oferecer a quem precisa. Os apoios individuais podem gerar alto impacto, ainda mais se feitos em causas estratégicas, pois amplificam investimentos mais modestos ao somar esforços individuais em prol de diferentes organizações.

Há uma crise inesperada e trágica. Como afirmou o cientista político Sérgio Abranches em debate promovido pelo Confluentes (uma iniciativa destinada a conectar pessoas, ideias e causas estratégicas no combate às desigualdades), assim serão as crises daqui para frente: inesperadas. A maneira de atravessar essa crise e o ponto de chegada dependem de nossas escolhas e de nossa capacidade de mobilização, conscientização, engajamento e participação.

A pandemia abriu uma oportunidade: a solidariedade e a empatia dela decorrentes podem ajudar na prática de participação, engajamento e doação de recursos financeiros para ações e organizações da sociedade civil sem fins lucrativos.

O caso brasileiro é emblemático, por ser um dos países onde os valores da democracia e da liberdade estão postos em xeque. Mais do que nunca, é possível contribuir para mudanças mais sistêmicas, que atendam ao conjunto da população mais vulnerável e coloquem a coisa pública no centro do debate. Você pode ser parte dessa mudança.

(Artigo publicado originalmente em 17 de abril de 2020 na Folha de S. Paulo.)

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