por Mariana Arruda Botelho, psicanalista e confluente                                                   

“Mais da metade dos brasileiros têm renda menor que um salário mínimo”. Manchete de um jornal, de outubro de 2019. Bati o olho, voltei, li novamente, achei estranho o número. Por pouco deixei passar o impacto da notícia, mas não deu. Que informação difícil…. Fui obrigada a mudar a minha percepção sobre mim e sobre os outros.

Sou psicanalista, trabalho em consultório de seis a oito horas por dia, escuto a intimidade de pessoas com alguma diversidade (desde pagamentos sociais ao preço “São Paulo”, um dos mais altos no mundo). Arrisco afirmar que a desigualdade é a gigantesca parte encoberta do iceberg afetivo humano. Seja ela primordial: nascemos dependentes e despreparados em desigualdade de condições em relação a um adulto, que por sua vez variam em suas capacidades, bem como temos atributos distintos e limitados para lidar com eles. Cenário que já explicita uma desigualdade ambiental.

No micro e no macro, a desigualdade é motivo de sofrimento psíquico e real, se é que dá para fazer essa distinção. Muitas vidas buscam reparar os efeitos nocivos dessa desigualdade, muitas vidas simplesmente não vingam deixando um resto ressentido ou desvitalizado corroendo exponencialmente o tecido relacional.

Dentro do consultório, pequenos milagres acontecem e vemos o poder de um sopro de vida que nossa presença analítica amorosa é capaz de fazer. Essa loucura dos analistas só pode ser compartilhada entre analistas que vibram quando a vida se sobrepõe a morte, dentro de cada um. Parece pouco, mas não é. Ainda assim é pouco quando vemos aumentar proporcionalmente moradores de ruas e carros blindados, entre outras tragédias da desigualdade.

A civilização precisa se opor a barbárie; para nós, freudianos, é a condição humana sem mediação. A mediação está falhando no Brasil, talvez no mundo. Vivemos um excesso de necessidades desatendidas e um excesso de recursos desperdiçados. Não reconhecer essa realidade faz parte do processo de negação que muitas vezes usamos por não nos sentirmos aptos a lidar com o real. Quanto mais difícil vai ficando, mais impossível parece ser a solução. Por isso tanta gente deixa o país, desde endinheirados a mentes brilhantes, e vamos nos alheando com tantas distrações fugazes. É triste.

No dia em que li essa notícia algo me tocou profundamente, e o Confluentes conversou com o que eu vinha refletindo. Reconheci a mim mesma como alguém que tem para dar. A iniciativa recebe recursos, quantidades possíveis de acordo com a realidade de cada um. Mais que isso, conecta pessoas e programas que acreditam que a força individual, quando se conecta com outras forças, se torna muito mais potente. Envolver-se pessoalmente naquilo que fazemos é determinante para um bom prognóstico no consultório ou na vida.

Doar é bom, claro, mas não resolve. Traz um alívio momentâneo. A minha experiência profissional me ensina a cada instante: não basta o leite da mãe comprado com o dinheiro do pai (metáfora psicanalítica quiçá datada), mas o alimento que a mãe pode oferecer ao seu bebê porque ela mesma é alimentada. A qualidade da mãe e do pai encorpam o leite que encorpa o bebê. Dá trabalho e dizem que é pra vida toda, muita gente reclama. Mas, se não houvesse os bebês, como daríamos sentido às mães e pais?

Vida é arregaçar as mangas, morte é virar as costas.

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