Entrevista com Inês Mindlin Lafer, idealizadora do Confluentes                             

Idealizadora do Confluentes e diretora do Instituto Betty e Jacob Lafer, Inês Mindlin Lafer explica a seguir como surgiu, como funciona e para onde vai a iniciativa que reafirma um novo modelo de filantropia no Brasil. Inês lembra que o Confluentes atua numa frente dupla: doação de recursos e conexão entre pessoas e causas. E avisa: é possível uma filantropia que cabe no bolso de quem tem um pouco mais para oferecer a quem precisa.

Como surgiu a ideia do Confluentes?
Confluentes é, como costumamos definir, um novo modelo de filantropia no Brasil. É uma iniciativa que fala ao mesmo tempo em doação de recursos e conexão. Buscamos atrair doadores, mas simultaneamente conectar pessoas que têm algo em comum: estão insatisfeitas com a situação do país e buscam alternativas para promover mudanças, especialmente através de causas que visam à redução das desigualdades.

Você fala em novo modelo de filantropia. A novidade está nessa conexão de pessoas?
Sim, mas não apenas. É um novo modelo por ser agregador e articulador, que favorece as confluências, o encontro de ideias, motivações e olhares. Mas também é inovador porque buscamos mostrar que a filantropia não deve se restringir a milionários, fundos internacionais engajados em causas sociais, institutos e fundações empresariais ou empresas socialmente responsáveis. Como escrevi em artigo publicado na Folha de S.Paulo, muita gente no Brasil não se vê como elite, mas quem tem renda acima de R$ 27.744 mensais está no grupo do 1% mais rico entre os trabalhadores brasileiros. Tem condições, portanto, de assumir seu protagonista na construção e um país mais justo. Acreditamos que é possível uma filantropia estratégica que cabe nesse bolso de quem tem um pouco mais a oferecer a quem precisa.

Pensando em doação de recursos e de tempo, uma dificuldade é o processo de escolha. O Confluentes ajuda a resolver essa dificuldade?
Queremos dialogar com pessoas de todos os tipos, inclusive profissionais mais jovens, que estão no mercado de trabalho, progredindo em suas carreiras, e têm essa vontade de se engajar socialmente. De fato, muitas vezes não sabem como fazer isso, têm dificuldade na hora de identificar iniciativas eficazes, ou confiáveis, em que possam investir. É aí que entramos.

Por que é importante que essa parcela da população se engaje socialmente?
Não existe uma ampla cultura doação de recursos financeiros no Brasil. Com a entrada desses novos atores, desses apoios individuais, no cenário da doação filantrópica, diversificando as fontes de recursos, seremos capazes de apoiar iniciativas em áreas que estão hoje em segundo plano, mas que são fundamentais para a construção de uma sociedade civil ativa. Porque as doações de institutos privados e de pessoas de altíssimo patrimônio, por serem restritas, costumam priorizar áreas como educação, assistência social e saúde. Outros temas, como participação política, fortalecimento da democracia, desigualdade, entre muitos outros, ficam em segundo plano. E são agora a nossa prioridade.

Mas esse não seria o papel do Estado, do governo, das políticas públicas?
A filantropia jamais vai substituir o papel das políticas públicas e do Estado. Mas a filantropia pode, e deve, ser complementar no sentido de ajudar a pensar alternativas, propostas e modelos, além de trazer um recurso financeiro emergencial para aquilo que o Estado não tem capacidade de suprir no momento.

O aumento dos impostos sobre as grandes fortunas não resolveria esses problemas?
A filantropia também não substitui a discussão sobre justiça tributária no Brasil. Existem, aliás, alguns institutos e fundações que apoiam a sociedade civil no desenvolvimento de ideias e na ampliação do papel redistributivo do Estado e da regulação pública, reduzindo desigualdades, muitas vezes estruturais. Para mim tanto as políticas públicas quanto a filantropia são essenciais. E funcionam ainda melhor quando dialogam entre si, quando caminham juntas.

É possível, então, reverter esse cenário da filantropia no Brasil, que, como você disse, não faz parte da nossa cultura?
Sim, e tudo indica que isso já está mudando. Mas precisamos, como sociedade civil, como quem está fomentando a filantropia, mostrar as diferentes alternativas de doação, mostrar que existe um conjunto grande de causas e que cada um pode se dedicar àquilo que mais lhe interessa e sensibiliza. Como eu disse, é possível pensar uma filantropia estratégica de alto impacto que cabe no bolso de quem tem um pouco mais a oferecer.

A atual pandemia da Covid-19 pode acelerar esse processo, fazendo com que mais gente se conscientize da importância da filantropia?
Acredito que sim. Temos agora a chance de escolher o caminho que queremos tomar, de definir a sociedade em que desejamos viver. Estamos enfrentando uma situação sem precedentes em nossa geração, e podemos escolher enfrentá-la com mais ou menos solidariedade. Podemos olhar para o que estamos fazendo com mais educação, mais colaboração, mais inteligência coletiva, ou então nos fechando em nossas nações, em nossas casas e comunidades, forçando a mão na vigilância e na repressão. É o momento de fazermos essa escolha. E, para mim, a escolha passa pela cooperação, pela solidariedade e pela soma de esforços.

Voltando ao Confluentes, como são escolhidas as organizações apoiadas por vocês?
Temos um conselho curador, formado por um grupo com ampla experiência no financiamento de iniciativas da sociedade civil. E todo ano escolhemos um conjunto de organizações para receber os recursos das pessoas físicas que se juntarem a nós – o nosso grupo de confluentes. Todas essas organizações são comprovadamente idôneas e relevantes, com alto potencial de promover mudanças em suas áreas de atividades. Só precisam do nosso apoio. Então, neste primeiro ano, cinco organizações estão recebendo os fundos que arrecadamos: o Ceert, que há 30 anos promove a equidade racial e de gênero; a Agência Pública, a primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativo do Brasil, fundada por mulheres; o Papo Reto, um coletivo de comunicação formado por moradores dos Completos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro; o Olabi, que atua na democratização das tecnologias; e o Vetor Brasil, que, por meio da inovação em gestão de pessoas, contribui para a melhoria do setor público no país.

Como as pessoas podem apoiar e se tornarem confluentes?
Temos três faixas anuais de apoio financeiro para pessoas físicas, a partir de R$ 5 mil anuais, cujos valores são revertidos e divididos igualmente entre as organizações apoiadas. Todos os confluentes recebem newsletters sobre as atividades realizadas no período e relatórios de prestação de contas sobre o uso dos valores arrecadados. Estão também convidados a divulgar seus nomes no site como apoiadores de nossa iniciativa e nossas causas, podendo, claro, se manter anônimos caso prefiram assim. E, além de contribuir socialmente e ampliar sua rede de contatos, os confluentes recebem benefícios exclusivos. Dependendo do plano escolhido, podem participar de eventos temáticos, encontros com lideranças políticas e sociais, conversas com artistas e clubes de leitura. Em março tivemos o primeiro encontro com os confluentes, realizado on-line, com o cientista político Sérgio Abranches e as jornalistas Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, e Natália Viana, da Agência Pública. Foi uma conversa muito esclarecedora em torno da saúde da democracia e das liberdades em tempos de pandemia. Outros encontros virão, sempre seletivos, reservados e certamente fundamentais nesse propósito de conectar pessoas, causas e ideias.

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