Uma conversa com Cida Bento, Daniel Teixeira e Júlia Rosemberg                                           

Para uma conversa sobre racismo e desigualdade, questões fundamentais para a consolidação da nossa democracia, os confluentes receberam Cida Bento, psicóloga e diretora executiva do CEERT, Daniel Teixeira, advogado e diretor de projetos do CEERT, e Júlia Rosemberg escritora e psicóloga. Realizado on-line na tarde do dia 24 de novembro, foi um bate-papo muito especial para marcar o último encontro temático do ano e celebrar as três décadas de atuação do CEERT, organização apoiada pelo Confluentes que vem produzindo conhecimento e desenvolvendo projetos voltados para a promoção da igualdade de raça e de gênero.

O assassinato de João Alberto Freitas, homem negro de 40 anos, num supermercado da rede Carrefour em Porto Alegre, cinco dias antes do encontro, véspera do Dia de Consciência Negra, não tinha como deixar de ser abordado. “Esse caso explicita como os estereótipos são projetados no corpo negro, particularmente dos homens jovens e negros, que, não à toa, são as maiores vítimas de homicídios sistemáticos no Brasil. Hoje, com as câmeras dos celulares, todos podem testemunhar aquilo com que convivemos há muito tempo, que é o racismo institucional e estrutural”, disse Daniel Teixeira.

Ele revelou esperar que a tragédia de João Alberto possa ao menos trazer como legado à sociedade brasileira uma quebra de tabus com relação à discussão do racismo. “Nos Estados Unidos o debate sobre o racismo é recorrente nas mais diversas esferas. Eles podem ter muitos problemas na hora de abordar a temática racial, mas tabu não é um deles”, afirmou Daniel, que foi que foi pesquisador-visitante da Faculdade de Direito da Universidade de Columbia, em Nova York. “O racismo é uma forma de hierarquia, pois valoriza certas vidas em detrimento de outras. O racismo repete cotidianamente que vidas negras importam menos. Por isso temos que seguir reafirmando o contrário”, completou, fazendo referência ao movimento que ganhou o mundo este ano após o assassinato do norte-americano George Floyd.

Júlia Rosemberg, que integrou a equipe do Centro de Estudo das Relações de Trabalho e Desigualdades do CEERT, onde coordenou o projeto Valorização da Diversidade, pôs em pauta a branquitude. Ela fez três perguntas para os participantes brancos responderem internamente: “Você acha que já foi beneficiado ou beneficiada pela cor da sua pele?”, “O que é ser uma pessoa branca no Brasil” e “Por que falar de raça incomoda tanto as pessoas brancas?”

“Quando começamos a pensar nisso tudo percebermos que a branquitude é naturalizada, é perseguida como um padrão universal. Se você quer encontrar no Google fotos de crianças negras ou casais negros, é necessário adjetivar. Procurando simplesmente por ‘crianças’ ou ‘casais’, as ocorrências serão todas de pessoas brancas. Isso nos dá uma pista de quais são os respectivos lugares das pessoas brancas e das pessoas negras na sociedade. Cotas para pessoas negras, buscando corrigir uma injustiça histórica, causam polêmica, mas a cota de 100% para pessoas brancas, algo que continua sendo o padrão, não choca ninguém”, disse.

Cida Bento, cuja tese de doutorado abordou o que chama de “pactos narcísicos da branquitude no racismo”, conectou as falas de Daniel e Júlia. “A dor de ver esse vídeo em que diversas pessoas assistem ao assassinato do Beto de forma impassível, filmando aquilo tudo com naturalidade, deixa claro que a vida daquele homem negro não vale muita coisa. Mas vivemos um momento importantíssimo, em que podemos falar sobre esse caso, sobre essa questão, com pessoas brancas. Podemos tirá-las desse lugar de branquitude, fazendo com que elas encarem essa situação e pensem no que podem fazer para mudar alguma coisa”, falou.

Um dos principais programas do CEERT é o Prosseguir, que traz um conjunto de ações afirmativas destinadas a estudantes nas cidades de São Paulo e Salvador. Entre outras iniciativas, ele oferece bolsas a jovens negros e negras com o objetivo de garantir a permanência dessas pessoas na escola e facilitar sua entrada no mercado de trabalho. “O Prosseguir vem colocando os negros num lugar de protagonismo, fazendo com que eles possam buscar um caminho longe de arma do policial, da perseguição, do perigo de morte. Apostar nisso é essencial para o país, não só para os meninos negros e as meninas negras, mas para a sociedade como um todo. As crianças brancas precisam incorporar positivamente o legado deixado pelos negros e indígenas”, finalizou Cida.

Para participar dos próximos encontros, torne-se confluente. Confluentes é um projeto que conecta pessoas, causas e organizações que querem tornar o Brasil um país mais justo e igualitário. Doe, aprenda, mude a si mesmo e ajude a mudar o mundo. Visite www.confluentes.org.br/faca-parte.

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