“Filantropia: é preciso ir além das emergências”, por Inês Mindlin Lafer e Cassio França

Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo em 5/3/22                                      

As desigualdades acentuadas pela pandemia de Covid-19 ressaltaram a importância do Investimento Social Privado (ISP) e da filantropia. O Brasil voltou ao Mapa da Fome, com 20 milhões de pessoas nessa situação e outras 120 milhões em algum nível de insegurança alimentar. Nesse contexto, as organizações da sociedade civil têm trabalhado intensamente em respostas rápidas para as emergências.

A conjuntura da crise sanitária marcou fortemente a atuação de investidores sociais e filantropos no país. Institutos, fundações e empresas se mobilizaram e até mesmo mudaram muitos parâmetros dos seus repasses de doações para alcançar quem mais precisa. Contudo, após o volume inédito de R$ 5,3 bilhões aportados pelo setor em 2020, segundo o mais recente Censo Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), a tendência é que esse total não seja alcançado nos próximos períodos. De acordo com o levantamento, o previsto para o ano de 2021 foi de R$ 4,2 bilhões, e a expectativa para os anos de 2022 e 2023 é manter esse mesmo volume.

O Censo Gife, o mais completo levantamento realizado bianualmente sobre o tema, mostra que as empresas ganharam destaque: em 2020, os investimentos sociais cresceram 470% em relação a 2019. Entretanto, são as próprias empresas que sinalizam maior redução de repasses em relação ao previsto para 2021 —20% delas indicam alguma diminuição. Considerando que as empresas aportaram 63% dos R$ 2,3 bilhões destinados à Covid-19, o estudo aponta uma tendência de redução no volume total alocado pelas empresas em investimentos sociais.

O contexto da pandemia não parece ter influenciado as estratégias de atuação adotadas pela maior parte das organizações, tanto nas formas de repasse a terceiros quanto nos modelos de execução de iniciativas próprias. Esse indicador retrata um setor que pode se beneficiar muito de inovações, especialmente no que diz respeito a práticas de “grantmaking” —repasse de recursos financeiros, de forma estruturada, para organizações ou iniciativas de interesse público, diferenciando-se, assim, da operacionalização de projetos próprios.

A mais recente edição do Censo Gife traz uma fotografia, com peso de registro histórico, da mobilização do ISP nas respostas emergenciais —e cabe destacar como essas ações foram fundamentais para as necessidades geradas por essa conjuntura tão alarmante. Mais do que isso, o panorama comprova que o ISP brasileiro tem capacidade de mobilizar uma quantidade de recursos que antes parecia ser pouco provável. Portanto, o ineditismo de 2020 mostra que é possível mobilizar R$ 5,3 bilhões de recursos privados para fins públicos, assim como indica que parcerias do ISP com organizações da sociedade trazem impactos sociais positivos.

O volume recorde de investimentos não pode ser o teto para a atuação dos investidores sociais. É preciso investir mais, de forma qualificada, diversificada, sistemática e primando por valores de justiça social, redução das desigualdades, promovendo a equidade racial e o fortalecimento da democracia para, de fato, contribuir com o enfrentamento dos desafios de um país como o Brasil.

Inês Mindlin Lafer é diretora do Instituto Betty e Jacob Lafer, idealizadora do Confluentes e presidente do conselho do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife)

Cássio França é cientista político e secretário-geral do Gife

(Veja o artigo no site do jornal pelo link www1.folha.uol.com.br/opiniao/2022/03/filantropia-e-preciso-ir-alem-das-emergencias.shtml)

Foto: Marlene Bergamo/Folhapress

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