Entrevista com Txai Suruí, da Kanindé

“Precisamos reflorestar mentes para a cura da Terra”                                            

Txai Suruí é coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, organização que, apoiada pelo Confluentes em 2022, vem há 30 anos propondo soluções que fortalecem o meio ambiente e a identidade, a cultura, a economia, a educação e a saúde dos povos indígenas. Filha de Ivaneide Bandeira Cardozo, também conhecida como Neidinha Suruí, fundadora da Kanindé, Txai foi a única brasileira a discursar na COP26, a Conferência da ONU pelo Clima, em 2021, e este ano estreou como colunista da Folha de S.Paulo. Nesta entrevista, Txai conversou com Carolina de Arruda Botelho, gestora do Confluentes, sobre suas experiências, sonhos e desafios.

Quem é você?
Sou Txai, sou filha, sou mulher, sou indígena, sou amiga, sou irmã. Sou uma mulher que gosta de ler, que gosta de falar, de se expressar. Sou ativista do povo Paiter Suruí, coordenadora da Kanindé e conselheira do WWF-Brasil. Tenho 25 anos e sempre gostei muito de associações e organizações. Na faculdade fui do centro acadêmico, na Kanindé fundei o Movimento da Juventude Indígena de Rondônia. E representei a juventude indígena na COP, que foi onde as pessoas me conheceram pelo meu discurso de abertura. Minha trajetória de luta é a minha vida, pois quando somos indígenas temos poucas escolhas. Uma dessas escolhas é se a gente vai lutar ou não. E eu escolhi lutar.

Para você, quais são os maiores desafios da Kanindé? E quais os seus medos?
O maior desafio é enfrentar toda a criminalização que as ONGs vêm vivendo hoje no país, todas as invasões e ataques que os povos indígenas vêm sofrendo. É uma carga muito grande para mim, pessoalmente, cuidar de tudo isso e viver tudo isso. Trabalhar com todos esses perigos, com todas essas ameaças, sendo coordenadora da Kanindé e do Movimento da Juventude Indígena. É muita responsabilidade para uma pessoa jovem, porque eu ainda me considero muito jovem. Então às vezes essa carga mental é muito pesada. Sobre os medos, o maior deles é o Bolsonaro se reeleger. Mas também tenho preocupações com a segurança e a saúde da minha família, dos meus amigos, das pessoas que estão ao meu redor. São medos muito reais. Quando eu era mais jovem, por exemplo, minha família precisou ser acompanhada pela Força Nacional porque sofremos ameaças de morte. Então esse é um medo muito grande. E também tem o fato de muitas vezes só sermos vistos como ativistas, esquecem que somos pessoas que têm sentimentos, que erram, que estão aprendendo, evoluindo, crescendo. Queremos cuidar do mundo, mas também precisamos cuidar de nosso corpo e da nossa mente para poder dar continuidade ao nosso trabalho.

O que faz você acordar todos os dias e não desistir do ativismo?
Se a gente não lutar, o que é que vai acontecer? Quem vai lutar pela gente? Se a gente não lutar, vão continuar invadindo os nossos territórios, vão continuar ameaçando a vida das nossas comunidades. Lutar pelo território e pelos povos indígenas é a nossa vida, é o que somos.

Como você enxerga o seu papel como jovem, mulher e indígena?
O meu papel e o de qualquer pessoa que tenha um pouco de visibilidade ou mais oportunidades que os outros é trazer mais pessoas para o seu lado. Se eu estou aqui, vou trazer mais mulheres para estarem aqui comigo. Vou trazer mais jovens, vou trazer mais povos indígenas. E acho que a revolução vai passar pela luta das mulheres, pela luta de qualquer mulher que esteja sofrendo. A revolução e a transformação do mundo só vão acontecer quando a gente conseguir de fato andar tranquila na rua, voltar tranquila do mercado, quando a gente não tiver nossos filhos sofrendo, morrendo de desnutrição por causa do garimpo, como está acontecendo com os Yanomami. Quando a gente tiver autonomia em relação aos nossos territórios e respeito aos nossos corpos como mulheres, quando a gente não tiver mais violência obstétrica, por exemplo. É a luta por um mundo melhor. Ser uma mulher indígena no Brasil de 2022 significa ser guerreira.

Como você avalia o momento que vivemos hoje?
O que os povos indígenas vêm vivendo hoje é um contexto de ameaças, um contexto de ataque, mesmo. Isso vem acontecendo por parte do próprio Legislativo, com o PL 490, que quer acabar com as terras indígenas, com o PL da Grilagem, com o PL do Veneno e todos esses projetos de lei que atacam o meio ambiente e os direitos dos povos indígenas. E quem hoje vem segurando a Amazônia, segurando a floresta em pé? São as terras indígenas. São os povos indígenas que vêm protegendo esses territórios. A gente só vai superar essa crise quando demarcar e proteger as terras indígenas. E estamos vivendo também um contexto de ataque aos órgãos ambientais. Mais do que se omitir na proteção dos nossos territórios e na defesa dos nossos direitos, o governo tem um discurso que fomenta a invasão dos nossos territórios, incentiva. Então a gente está passando por uma guerra, mesmo.

Qual é a sua expectativa para os próximos anos?
Às vezes é difícil falar de futuro, né? Com tudo isso acontecendo, fica um pouco difícil. Mas as minhas expectativas têm que ser esperançosas. A gente tem que acreditar no trabalho que a gente vem fazendo aqui, de construção de um mundo melhor. Mesmo sabendo que é um caminho muito longo. Porque, independentemente de o Bolsonaro ser reeleito ou não, o bolsonarismo vai continuar e vai ficar aí. Ou seja, a gente tem ainda um trabalho muito grande para reverter isso. Um trabalho de transformar, ou, como diriam as mulheres indígenas, de reflorestar mentes. Reflorestar mentes para a cura da Terra. Esse é um trabalho que a gente tem que fazer para conseguir de fato pensar em um futuro.

Qual é o Brasil dos seus sonhos?
Meu sonho é um Brasil com terras indígenas demarcadas, com terras protegidas, em que as mulheres possam andar tranquilas na rua. É um Brasil sem desigualdade, com igualdade de gênero. Um país melhor para todo mundo, não só para alguns.

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