Por Ana Biglione, consultora e facilitadora de processos, fundadora da Noetá e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação

Vinte anos atrás, quando comecei a atuar com transformação social, com filantropia, estávamos, enquanto campo, muito engajados em tornar a doação um ato estratégico, pensado, comprometido com a efetividade. Ainda que tais ideias ainda me pareçam relevantes, preciso confessar: a forma como achávamos que isso seria possível caducou.

Há algumas semanas me reuni com outras profissionais em uma conversa que tocou os rumos da filantropia e pairava no ar uma certa sensação de desânimo ou talvez de exaustão, mas de outra ordem daquela acumulada por um campo que trabalhou intensamente desde o início da pandemia. Se tratava do cansaço advindo do encontro com um modus operandi na filantropia institucionalizada que parece já não nos servir mais, maneiras usuais de fazer doações que estão presas a modelos de pensamento antigos, que geram desgaste.

Com moldes rígidos, prazos curtos e processos tão controlados que quase não dão margem para que as organizações que recebem os recursos possam lidar com um mundo que se transforma cada vez mais rapidamente, percebemos que a filantropia estratégica está precisando de novas… estratégias. Talvez a forma de fazer que um dia foi mesmo estratégica, em tempos atuais tenha se tornado estreita. Nilton Bonder nos tranquiliza: “Todo lugar onde o homem cresceu e se desenvolveu, um dia se torna estreito, nenhum lugar pode ser amplo para sempre. O ventre materno é o primeiro grande exemplo.”

Aliados ao nosso processo de evolução, estão os temas advindos do próprio trabalho no campo. Somos provocados constantemente a mergulhar em temas cruciais como racismo estrutural, patriarcado e colonialismo e, com isso, vamos nos dando conta de que em nossa própria prática estamos sustentando uma realidade que perpetua, por exemplo, a desconexão e a concentração do poder.

Acomodados em selecionar organizações para receberem doações por critérios definidos e pensados sem o envolvimento das organizações que o receberiam, ainda costumamos considerar apenas o olhar de quem doa. Sabemos pensar a partir de teorias de mudança que dizem sobre o público a quem se destinam, mas poucas vezes partimos de uma escuta cuidadosa deste público e/ou atuamos em conjunto com ele na construção da teoria em si. Quanto mais olhamos de perto e com criticidade, mais percebemos que são diversos os aspectos que podemos questionar na nossa atuação filantrópica estratégica atual.

Porém olhar e questionar a si mesmo é um desafio (afinal significa tanto nos colocar no centro, quanto nos depararmos com falhas), e ao não fazer isso, acabamos por manter os padrões conhecidos, ainda que geradores do nosso próprio cansaço. Se olharmos por outro ângulo, talvez o cansaço que sentimos seja a maior notícia que temos da necessidade de nossa própria mudança, quebrando esse ciclo vicioso.

Mas antes que caiamos em um processo desmobilizador de culpa, podemos simplesmente reconhecer – e aceitar – que precisamos mudar a forma de praticar filantropia (aliás, não apenas a filantropia, mas esta pode ser um estopim de uma mudança mais ampla, ou ao menos deve ser parte dela).

O mais paradoxal deste cenário é que, em nome de um futuro almejado (e previsto em nossas teorias de mudança), estamos aprisionados a estruturas velhas, deixando de perceber a mudança que se manifesta no presente. Se parássemos de olhar apenas para o futuro como nosso objeto de transformação e olhássemos também para o presente – para como estamos fazendo nossas ações hoje – poderíamos aproximar esse futuro tão desejado do momento atual; poderíamos viver no presente, a mudança que seguimos esperando para o futuro.

Parece simplista afirmar esse movimento desta forma – e é, mas se o ato de doar, se a filantropia quiser ser realmente transformadora, tanto quanto desejar transformar, ela tem que se abrir para ser transformada, para transformar a si mesma e sua prática. Criar hoje as relações e a forma de se relacionar que deseja para o mundo.

Essa inversão aparentemente contraditória, de transformar para transformar-se, e do futuro para o presente, é nosso próximo passo rumo a uma filantropia mais contemporânea, decolonizadora e regenerativa. E, apesar de facilmente compreendido, é um grande desafio a ser colocado em prática.

Talvez um primeiro movimento enquanto doadores ou profissionais desse campo da doação, seja nos abrir para aprender mais do que desejar ensinar. Fazer perguntas e reconhecer que não sabemos exatamente como a transformação acontece e que nem os melhores matemáticos poderiam calcular uma rota exata, pois não há rota exata ao se tratar da complexidade humana, do tamanho da transformação social que intencionamos.

Talvez possamos reconhecer que o jeito colaborativo, humano, transformador e cuidadoso, vive no campo social com muito mais naturalidade do que no mundo empresarial (de onde boa parte dos doadores e profissionais da filantropia vem, e de onde importamos teorias de gestão), ainda que atualmente até mesmo nele, ande ficando raro… ou seja, teremos mesmo que descobrir novas formas de atuar, juntos.

A frase de Nilton Bonder, acima, segue dizendo: “saber entregar-se às contrações do lugar estreito, rumo ao lugar amplo, é um processo, é um processo assustador, avassalador… e mágico!”.

No momento atual, transformar a maneira como fazemos filantropia talvez seja nossa maior contribuição em prol da sonhada transformação coletiva.

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