Um encontro com Esther Solano

Pesquisadora conversou com os confluentes a respeito de pesquisas sobre as motivações dos eleitores brasileiros

Os confluentes tiveram um encontro exclusivo com Esther Solano, especialista em pesquisas qualitativas de opinião pública, doutora em Sociologia pela Universidade Complutense de Madri e professora da Unifesp. Ela também é coautora do livro The Bolsonaro paradox, que investiga o movimento que levou Jair Bolsonaro à presidência no Brasil tendo como pano de fundo a onda global de novos movimentos de direita. Na conversa, que aconteceu via Zoom, o tema central foram as pesquisas lideradas por ela e o momento pré-eleitoral decisivo para a democracia brasileira.

Esther abriu o bate-papo explicando que seus estudos se fudamentam em pesquisas qualitativas de metodologia muito específica, baseados em grupos focais etnográficos. Enquanto um grupo focal tradicional reúne cerca de sete ou outro pessoas para, ao longo de pouco mais de uma hora, extrair percepções gerais de opinião pública, o modelo etnográfico trabalha com grupos menores, de no máximo três pessoas, durante um período mais extenso, entre duas e três horas, buscando mais profundidade nas entrevistas.

“É um processo muito mais artesanal, guiado pelo conceito de ‘histórias profundas’, em que a ideia não é saber exatamente, por exemplo, a percepção eleitoral e ideológica de um grupo de eleitores, mas entender as estruturas afetivas, emocionais e biográficas que estão por baixo de tudo isso, os alicerces sobre os quais se constrói a experiência eleitoral. É uma metodologia interessante porque, ao longo de conversas mais demoradas, somos capazes de desfazer o que aparentemente são paradoxos, compreendendo as linhas de raciocínio que estão por trás”, contou.

Em seguida ela abordou, a partir dos resultados de suas pesquisas, comportamentos e motivações de grupos eleitorais. Um deles são os bolsonaristas, que ela separa duas vertentes: os radicais e os moderados. Com relação ao primeiro grupo ela ressalta uma tendência recente de hiper-radicalização. “O que víamos meses atrás era uma base muito fiel, mas pulverizada, desorganizada. A fidelidade se mantém, mas agora essa base está muito mais coesa e unificada no discurso. O que logicamente a fortalece”, afirmou.

A pesquisadora destacou ainda uma mudança na retórica desse grupo. “Até pouco tempo o inimigo era, tipicamente, a esquerda ou tudo aquilo que de alguma forma se associasse a ela. O que vemos agora é um deslocamento dessa figura do inimigo para algo, neste momento, mais destrutivo, que é o processo eleitoral. Está sendo construída uma narrativa muito sólida e, ao mesmo tempo, simples de que não há outra possibilidade de Lula vencer as eleições a não ser fraudando o processo. E isso evidentemente acende uma luz vermelha.”

Por outro lado, a base bolsonarista moderada votou em Jair Bolsonaro em 2018 movida por sentimentos de frustração, raiva e ressentimento em relação à esquerda e ao PT, sem jamais ter sustentado um apego à figura do presidente. Agora, segundo Esther, esse leitor acaba se descolando de Bolsonaro por, essencialmente, três características de seu governo: a desumanidade, principalmente no que se refere ao comportamento no auge da pandemia; a instabilidade, seja econômica ou política; e a corrupção, tanto pelo fato de o presidente não ter cumprido a promessa de combatê-la quanto por sua aliança com grupos notoriamente corruptos.

Para ela, tudo isso, aliado à crise econômica, faz com que essa base mais moderada acabe flutuando entre o Bolsonaro e Lula – no que chama de “bolsolulismo”. Esse fenômeno também acaba impedindo que a chamada “terceira via” se torne eleitoralmente viável.

“O que vemos nas entrevistas em profundidade é o que chamo de ‘paradoxo da polarização’. Por um lado, os eleitores mais de centro, que não se identificam com a direta ou a esquerda, se dizem cansados da polarização. Na teoria, então, isso indicaria que há espaço para uma terceira via, mas a polarização que vivemos hoje no Brasil tem um conteúdo muito afetivo. Bolsonaro e Lula não são simplesmente figuras políticas, são campos sociopolíticos e afetivos muito importantes, fontes de paixões positivas e negativas tão poderosas que não permitem que haja um espaço entre elas. Por isso, na prática, ficamos presos a essa dinâmica”, completou.

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